Venho falando bastante sobre a importância de encerrar ciclos, deixar o passado onde ele deve ficar e criar espaço para o novo. Virar páginas, fechar capítulos, ressignificar histórias. Mas o que eu não esperava era que, logo no primeiro dia de 2026, a reflexão diária viesse como um verdadeiro tapa na cara: presunção e arrogância.
Confesso: nunca tinha parado para pensar nesses dois conceitos com tanta atenção. Talvez porque sejam palavras que costumamos associar sempre ao outro. Raramente a nós mesmos. Mas quanto mais li, mais fez sentido. Especialmente se o desejo for genuíno: evoluir para o novo.
Presunção é supor algo sem base suficiente, principalmente sobre si mesmo. É acreditar que já sabe, que já entendeu, que já chegou. É uma certeza antecipada, construída muitas vezes a partir da experiência passada — mas sem abertura para o que ainda pode ser aprendido. A presunção não nasce da ignorância explícita, mas da falsa sensação de completude.
A arrogância, por sua vez, é quando essa presunção ganha forma no comportamento. Ela aparece na postura, no tom de voz, na dificuldade de ouvir, na necessidade de estar certo, na desvalorização sutil — ou explícita — do outro. É uma atitude relacional. Não fica só dentro; ela se manifesta.
Quando presunção e arrogância caminham juntas, criam algo perigoso: um escudo.
Um escudo que protege o ego, mas bloqueia a evolução.
Um escudo que afasta novas ideias, novas experiências e novas possibilidades.
E aqui está o ponto que mais me incomodou — no bom sentido: como iniciar um novo ciclo carregando os mesmos filtros do ciclo anterior?
Como acessar o novo se continuo acreditando que já sei tudo o que preciso saber?
Como evoluir se estou mais preocupada em afirmar do que em aprender?
Encerrar ciclos não é apenas deixar pessoas, projetos ou histórias para trás. É também — e talvez principalmente — encerrar versões de nós mesmos que já não servem mais. E isso exige humildade. Exige abertura. Exige reconhecer que aquilo que nos trouxe até aqui pode não ser suficiente para nos levar adiante.
A presunção nos mantém presos ao passado.
A arrogância nos impede de atravessar para o futuro.
O mais desconfortável é perceber o quanto essas atitudes estão presentes no cotidiano, de forma sutil: nas certezas rígidas, nos julgamentos rápidos, na escuta seletiva, na resistência ao diferente. Elas não gritam. Elas se escondem. E justamente por isso passam despercebidas.
Talvez o verdadeiro começo de um novo ciclo não esteja em grandes decisões externas, mas em um movimento interno muito mais silencioso — e corajoso: reaprender a ser ensinável.
Porque o oposto da arrogância não é a insegurança.
É a humildade consciente.
E o oposto da presunção não é a ignorância.
É a curiosidade.
Se evoluir para o novo é, de fato, a intenção, talvez a pergunta mais honesta a se fazer seja simples — e profunda:
em quais momentos eu ainda estou usando esse escudo sem perceber?
Nem sempre a resposta é confortável.
Mas quase sempre é o início da transformação.